Depois
de 2 meses e meio de internamento, regressar a casa e fazer fisioterapia em
ambulatório deveria ser , em princípio, um alívio e um motivo de satisfação
para mim.
Mas o regresso a casa foi um choque.
Afinal
o mundo fora do Hospital tinha
continuado como antes, como se nada tivesse acontecido.
Mas
eu tinha o meu mundo virado do avesso.
Nos
primeiros tempos senti-me uma estranha.
Como
se tivesse viajado para um lugar tão diferente e distante que agora que tinha
regressado, já não reconhecia o lugar
donde partira. Este não era o meu mundo.
As
pessoas eram as mesmas, mas eu não. Nem eu as via da mesma maneira, nem elas me
encaravam da mesma forma.
Embora
todos me recebessem com sorrisos, beijos e até flores para festejar o meu
regresso, eu já não era a mesma Paula.
Até
que ponto conseguiriam os outros perceber quão difícil e violento era para mim estar tão diferente,
tão dependente, tão cheia de medo?
Não
me digam que sou forte, não me digam para ter paciência, não me digam para ter
calma. Recuso-me a ouvir!
Queria
gritar! Gritar que não queria viver assim o resto da minha vida, gritar que
estava farta que me dissessem que tudo ia ficar bem.
Queria
dizer bem alto que nada voltaria a ser como antes. Que nada jamais seria igual.
E
foram assim as minhas primeiras semanas. Neste estado de revolta e ansiedade,
de impotência e desalento.
Até
que comecei a olhar para mim, ou melhor dizendo, a olhar para dentro de mim.
E
percebi que estava a entrar num estado de auto-comiseração que
estava a tornar-me insuportável e que só causava mais dor a mim e aos meus
próximos.
É
bom quando conseguimos distanciarmo-nos o suficiente de nós próprios para nos
analisarmos. Nessa altura não gostei do que vi de mim mesma .
Foi
quando disse: BASTA!
E
agarrei-me à minha reabilitação, como um náufrago se agarra a um pedaço do
barco destruído. E RENASCI.
Hoje
sou outra Paula, nem melhor nem pior, apenas diferente.
Diferente
fisicamente, emocionalmente, psicologicamente e até socialmente.
Afinal,
não somos todos nós um somatório das experiências que vamos acumulando ao longo
da vida?
Como
poderia pôr um parênteses neste capítulo
da minha vida? Ou fazer um intervalo? Tinha que refazer o guião da minha vida.
Durante
5 anos fiz sempre fisioterapia, TO, hidroterapia, com raros e breves intervalos.
Neste
momento e passados 6 anos, já não me limito
a viver só para a reabilitação.
É
na verdade parte integrante da minha vida, tornou-se um hábito tão natural como beber
água. Tal como um atleta, tenho que treinar sempre, mas já o faço com um ritmo
menos intenso.
E
tiro sempre um tempo para o que me é agora também essencial: ler, ouvir música, apanhar sol, brincar com os
netos, atirar a bola ao cão, não perder o último episódio de uma das minhas
séries preferidas (Game of Thrones!) , andar na praia, sei lá, fazer qualquer
coisa que me faça feliz.
Todos
os dias. Porque a vida é preciosa e
quero aproveitá-la. Quero ser feliz. Hoje.
Não
quero que o AVC tome conta da minha vida. Eu sou mais que isso.
Mas
é exactamente por saber o quanto o AVC nos pode esmagar, que faço questão de
continuar a alertar, a divulgar e a falar de reabilitação.
Nunca
vou desistir de mim. Sei que vou ser maior e melhor que os meus AVCs.
E
vocês, os que estão a ler estas palavras: Sejam felizes e não se entreguem
nunca.
(Desde
2010 que nunca mais estive internada devido a um AVC. Desde 2009 que tinha sofrido
3 AVCs, como já contei noutro post.)
Hoje
deixo um vídeo que demonstra muitos dos exercícios que repeti vezes sem conta.
E que ainda faço…

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