No dia em que sofri o AVCH, no momento em que me colocaram na ambulância do INEM para seguir para o H.
S. José deu-me uma convulsão.
Fui prontamente socorrida pelo médico, que me estabilizou e deu
ordem para a ambulância arrancar. Após alguns metros, tiveram que parar de novo
pois estava a dar-me uma segunda convulsão.
Eu não me lembro de nada disto, apenas soube destes incidentes
bastante mais tarde.
Foi-me explicado depois, que, embora eu antes nunca tivesse tido
uma convulsão, uma das complicações que
podem ocorrer com o AVC, são as crises convulsivas. E foi o que me aconteceu.
Resumidamente, a convulsão é a mudança súbita de comportamento
provocada pelo excesso de actividade eléctrica no cérebro.
Trata-se de um fenómeno electro-fisiológico que ocorre (descarga
bio-energética) e resulta numa sincronização anormal da actividade eléctrica
neural.
Estas alterações podem reflectir-se a nível
da tonicidade corporal, gerando contracções involuntárias musculares
com movimentos desordenados, ou outras reacções
anormais como desvio dos olhos e tremores, alterações do estado mental
ou outros sintomas psíquicos.
Fui então medicada pelo
neurologista com anti-convulsivantes , para evitar futuras crises.
Saí do Hospital ao fim
de 2 meses e iniciei a fisioterapia em ambulatório.
Passados 6 meses, numa
consulta de neurologia, o médico disse-me que em casos como o meu, que nunca
tinha tido antes do AVC convulsões , considerando que estava a tomar muita
medicação para outras complicações resultantes do AVC, e como não tinha
tido mais nenhuma crise, era
procedimento normal retirar o medicamento para as convulsões. E deixei de tomar
esse medicamento.
Mas, existem sempre
excepções, e eu fui uma delas.
Ao fim de 15 dias de deixar de tomar o anti-convulsivante, comecei a ter reacções estranhas: não
conseguia perceber que movimentos tinha
que fazer para pegar num garfo, ou o que tinha que fazer para levá-lo até à
boca. Assustada fui-me deitar, mas piorei: comecei a dizer coisas sem nexo, a
ter visões e a rir descontroladamente. Repetiu-me o AVC, isquémico desta vez,
e fui eu de novo internada.
Seis meses depois do 1º
AVC, quando já tinha deixado a cadeira de rodas e já andava de tripé, quando o
meu braço e mão já tinham alguns movimentos, eis que me vejo de novo atirada
para a cama de um hospital, com o lado direito de novo paralisado.
Foi muito difícil superar esta fase. Emocionalmente estava muita
abatida e frustrada. Era como se tudo o que tinha feito até então para a minha
reabilitação tivesse desaparecido, assim, num segundo.
Fiquei internada mais um
mês.
Tive que me reprogramar.
A minha vida estava de novo virada do avesso.
Agarrei-me de novo à
minha companheira de sempre, a música, que me levava para um mundo sereno e
feliz.
Nos intervalos da
Fisioterapia e da TO, lia e tentava informar-me sobre tudo o que estivesse
ligado com o AVC.
E rezava. Sempre
falei muito com Deus.
E obriguei-me a
acreditar uma outra vez que ia conseguir..
Foi um período penoso,
mas à medida que os dias passavam e eu ia recuperando os movimentos perdidos,
ganhava ânimo. E regressei a casa ainda a tempo de passar o Natal com a
família.
Recomecei a tomar o anti-convulsivante,
em dosagem ainda maior, e agora será para o resto da vida.
Mais uma prova
ultrapassada. Mas não a última deste género.
Sofri o primeiro AVCH no
dia 14-05-09. Exactamente um ano depois, em 14-05-10, sofri outro AVCI.
Fui de novo internada,
mais um mês, e desta vez fiquei mesmo arrasada, desmotivada, triste, desolada.
Estar pela 3ª vez
internada, fez-me reviver tudo o que já
tinha passado durante ano.
Toda a minha vida que se
tinha desmoronado, todos os sacrifícios feitos em nome da recuperação, todas as
dores sofridas, todas as tentativas para me erguer, e ao fim de um ano ali
estava eu, de novo, sem me conseguir mexer do lado direito, deitada numa cama
de hospital.
E foi nesse momento que percebi de que fibra era feita.
Foi nesse momento que percebi a fé que tinha em Deus.
Foi nesse momento que me recusei a desistir.
Foi nesse momento que decidi que queria continuar a viver.
Não importava como, nem de que maneira o ia fazer.
Apenas sabia que queria
continuar a viver.
Já passaram 6 anos, 4 meses e um dia desde o meu 1º AVC.
E estou aqui para dizer que, uma das coisas que aprendi é que,
sim, é possível ser feliz. Eu sou.
