terça-feira, 22 de setembro de 2015

HÁ VIDA DEPOIS DO AVC




Depois de 2 meses e meio de internamento, regressar a casa e fazer fisioterapia em ambulatório deveria ser , em princípio, um alívio e um motivo de satisfação para mim.

Mas  o regresso a casa foi um choque.

Afinal o mundo fora do Hospital  tinha continuado como antes, como se nada tivesse acontecido. 
Mas eu tinha o meu mundo virado do avesso.

Nos primeiros tempos senti-me uma estranha.
Como se tivesse viajado para um lugar tão diferente e distante que agora que tinha regressado, já não  reconhecia o lugar donde partira. Este não era o meu mundo.

As pessoas eram as mesmas, mas eu não. Nem eu as via da mesma maneira, nem elas me encaravam da mesma forma.

Embora todos me recebessem com sorrisos, beijos e até flores para festejar o meu regresso, eu já não era a mesma Paula.
Até que ponto conseguiriam os outros perceber quão difícil  e violento era para mim estar tão diferente, tão dependente, tão cheia de medo?

Não me digam que sou forte, não me digam para ter paciência, não me digam para ter calma. Recuso-me a ouvir!
Queria gritar! Gritar que não queria viver assim o resto da minha vida, gritar que estava farta que me dissessem que tudo ia ficar bem.
Queria dizer bem alto que nada voltaria a ser como antes. Que nada jamais seria igual.

E foram assim as minhas primeiras semanas. Neste estado de revolta e ansiedade, de impotência e desalento.

Até que comecei a olhar para mim, ou melhor dizendo, a olhar para dentro de mim.
E percebi que estava a entrar num estado de auto-comiseração   que estava a tornar-me insuportável e que só causava mais dor a mim e aos meus próximos.

É bom quando conseguimos distanciarmo-nos o suficiente de nós próprios para nos analisarmos. Nessa altura não gostei do que vi de mim mesma .
Foi quando disse: BASTA!

E agarrei-me à minha reabilitação, como um náufrago se agarra a um pedaço do barco destruído. E RENASCI.

Hoje sou outra Paula, nem melhor nem pior, apenas diferente.
Diferente fisicamente, emocionalmente, psicologicamente e até socialmente.

Afinal, não somos todos nós um somatório das experiências que vamos acumulando ao longo da vida?
Como poderia pôr um  parênteses neste capítulo da minha vida? Ou fazer um intervalo? Tinha que refazer o guião da minha vida.

Durante 5 anos fiz sempre fisioterapia, TO, hidroterapia, com raros e breves intervalos.
Neste momento e passados 6 anos, já não me limito  a viver só para a reabilitação.
É na verdade parte integrante da minha vida,  tornou-se um hábito tão natural como beber água. Tal como um atleta, tenho que treinar sempre, mas já o faço com um ritmo menos intenso.
E tiro sempre um tempo para o que me é agora também essencial:  ler, ouvir música, apanhar sol, brincar com os netos, atirar a bola ao cão, não perder o último episódio de uma das minhas séries preferidas (Game of Thrones!) , andar na praia, sei lá, fazer qualquer coisa que me faça feliz.
Todos os dias. Porque a vida é preciosa  e quero aproveitá-la. Quero ser feliz. Hoje.
Não quero que o AVC tome conta da minha vida. Eu sou mais que isso.

Mas é exactamente por saber o quanto o AVC nos pode esmagar, que faço questão de continuar a alertar, a divulgar e a falar de reabilitação.

Nunca vou desistir de mim. Sei que vou ser maior e melhor que os meus AVCs.

E vocês, os que estão a ler estas palavras: Sejam felizes e não se entreguem nunca.

(Desde 2010 que nunca mais estive internada devido a um AVC. Desde 2009 que tinha sofrido 3 AVCs, como já contei noutro post.)




Hoje deixo um vídeo que demonstra muitos dos exercícios que repeti vezes sem conta. E que ainda faço…