terça-feira, 29 de setembro de 2015

UM SONHO CONCRETIZADO

 


Uma das sequelas  motoras resultantes do meu AVCH foi a hemiparesia direita.

No meu caso o meu pé sempre foi um grande entrave para começar a andar: o meu pé ficou equino, completamente  pendente e torto.
Não era capaz de levantar o pé activamente e ele batia no solo ou os dedos arrastavam pelo chão.

Além disso, o meu pé ficou torto, aliás não assentava sequer no chão: por exemplo se o pusesse no chão ele ficava todo virado para dentro e com os dedos encolhidos.

Todos os exercícios de fisioterapia que deviam ser feitos descalça eram muito complicados de executar, pois sem nenhuma órtose, sem nenhum apoio, o pé virava-se todo.
Eram sessões de fisioterapia difíceis e dolorosas.

Para iniciar a marcha, comecei por usar um Foot-up que não me resolvia o problema do pé entortar e corria o risco de  fazer entorses.

Comecei então a usar uma tala rígida desde o pé até ao meio da perna.
Esta tala ou órtose, permitia-me uma marcha mais correcta, pois o pé ficava ali “encaixado” numa  posição direita.

Andei com esta tala durante 3 anos.
De noite, se acordasse e quisesse sair da cama tinha que colocar a tala dentro do  ténis.
No verão, se quisesse ir à praia só o conseguia fazer calçada com ténis e com  a famosa tala colocada. Ir até à beira-mar era muito complicado.

Durante 3 anos aquela tala fez parte de mim.
Lembro-me do alívio quando ao fim do dia a tirava e me sentava enfim descalça.  Com o pé torto, mas descalça….
Mas, para mim, usar a tala era a única forma de andar, fosse em casa ou na rua.

Com a fisioterapia passei por várias fases evolutivas: da cama fui para a cadeira de rodas, depois comecei a andar com o tripé, mais tarde andei de muletas, depois sugeriram-me andar com um bastão (para andar mais direita)  e também andei com uma bengala.  Sempre com a tala claro!

  
Nesse período pensava muitas vezes: será que vou conseguir andar descalça alguma vez? Sentir o chão  de novo, a areia fina e quente, um tapete macio debaixo dos pés? Às vezes tinha medo de me esquecer de  como eram essas sensações.

E possivelmente ainda hoje andaria com a tala, não fosse ter conhecido por mera coincidência, (e logo eu que não acredito em coincidências) um médico neurocirurgião, especialista em cirurgias em lesões neurológicas no pé e mão, em AVCs e outras situações.
Após  me ter feito uma avaliação detalhada da minha marcha , do meu pé e perna, explicou-me alguns detalhes da cirurgia e do pós-operatório.
E perguntou-me se eu queria marcar a operação para o pé.


Olhei-o de frente e perguntei o que ele me poderia garantir, quais os ganhos que eu teria.
Muito directo, respondeu-me que, embora ficasse a coxear, o pé ficaria direito e eu deixaria de usar tala, ou qualquer tipo de órtose.
Foi o que me bastou ouvir para responder sim.

Em  2012 fiz a operação. As fotos são do meu pé e perna 2 dias após a cirurgia.

Tive uma recuperação bastante dolorosa. Durante 2 meses voltei a andar de cadeira de rodas (pois o pé tinha que estar posicionado dentro de gesso) e não podia fazer qualquer tipo de força sobre ele. Ganhei uma escara e passei esses 2 meses praticamente deitada, pois tinha dores horríveis.
Ao final de 2 meses, recomecei de novo a fisioterapia.

Hoje ao fim de 2 anos, as cicatrizes mal se notam.
Nunca mais voltei a usar tala, nem nenhum apoio para o pé.

E concretizei um sonho: ando descalça, em casa, à beira-mar, onde me apetecer.
Ainda hoje, sempre que ando descalça sinto-me agradecida e feliz. É uma sensação de vitória e liberdade indescritíveis.

O que resultou para mim, não quer dizer que seja igual para  todos.
Mas achei que devia partilhar este episódio tão importante na minha história de recuperação, para  reforçar a ideia de que, quando menos se espera a oportunidade  bate-nos à porta. Temos é que estar atentos e disponíveis.
Nada é para sempre.


Por isso, encante-se com os seus pequenos ganhos. Recorde os momentos de vitória. E dê valor ao que já conseguiu!