terça-feira, 15 de setembro de 2015

CONVULSÕES E OS MEUS 3 AVCs


                           
No dia em que sofri o AVCH, no momento em que me colocaram  na ambulância do INEM para seguir para o H. S. José deu-me uma convulsão.
Fui prontamente socorrida pelo médico, que me estabilizou e deu ordem para a ambulância arrancar. Após alguns metros, tiveram que parar de novo pois estava a dar-me uma segunda convulsão.
Eu não me lembro de nada disto, apenas soube destes incidentes bastante mais tarde.
Foi-me explicado depois, que, embora eu antes nunca tivesse tido uma  convulsão, uma das complicações que podem ocorrer com o AVC, são as crises convulsivas. E foi o que me aconteceu.
Resumidamente, a convulsão é a mudança súbita de comportamento provocada pelo excesso de actividade eléctrica no cérebro.
Trata-se de um fenómeno electro-fisiológico que ocorre (descarga bio-energética) e resulta numa sincronização anormal da actividade eléctrica neural.
Estas alterações podem reflectir-se a nível da tonicidade corporal, gerando contracções involuntárias musculares com movimentos desordenados, ou outras reacções  anormais como desvio dos olhos e tremores, alterações do estado mental ou outros sintomas psíquicos.
Fui então medicada pelo neurologista com anti-convulsivantes , para evitar futuras crises.
Saí do Hospital ao fim de 2 meses e iniciei a fisioterapia em ambulatório.
Passados 6 meses, numa consulta de neurologia, o médico disse-me que em casos como o meu, que nunca tinha tido antes do AVC convulsões , considerando que estava a tomar muita medicação para outras complicações resultantes do AVC, e como não tinha tido  mais nenhuma crise, era procedimento normal retirar o medicamento para as convulsões. E deixei de tomar esse medicamento.
Mas, existem sempre excepções, e eu fui uma delas.
Ao fim de  15 dias de deixar  de tomar o anti-convulsivante,  comecei a ter reacções estranhas: não conseguia  perceber que movimentos tinha que fazer para pegar num garfo, ou o que tinha que fazer para levá-lo até à boca. Assustada fui-me deitar, mas piorei: comecei a dizer coisas sem nexo, a ter visões e a rir descontroladamente. Repetiu-me o AVC, isquémico desta vez, e  fui eu de novo internada. 
Seis meses depois do 1º AVC, quando já tinha deixado a cadeira de rodas e já andava de tripé, quando o meu braço e mão já tinham alguns movimentos, eis que me vejo de novo atirada para a cama de um hospital, com o lado direito de novo paralisado.
Foi muito difícil  superar esta fase. Emocionalmente estava muita abatida e frustrada. Era como se tudo o que tinha feito até então para a minha reabilitação tivesse desaparecido, assim, num segundo.
Fiquei internada mais um mês.
Tive que me reprogramar. A minha vida estava de novo virada do avesso.
Agarrei-me de novo à minha companheira de sempre, a música, que me levava para um mundo sereno e feliz.
Nos intervalos da Fisioterapia e da TO, lia e tentava informar-me sobre tudo o que estivesse ligado com o AVC.
E rezava. Sempre falei  muito com  Deus.
E obriguei-me a acreditar uma outra vez que ia conseguir..
Foi um período penoso, mas à medida que os dias passavam e eu ia recuperando os movimentos perdidos, ganhava ânimo. E regressei a casa ainda a tempo de passar o Natal com a família.
Recomecei a tomar o anti-convulsivante, em dosagem ainda maior, e agora será para o resto da vida.
Mais uma prova ultrapassada. Mas não a última deste género.
Sofri o primeiro AVCH no dia 14-05-09. Exactamente um ano depois, em 14-05-10, sofri outro AVCI.
Fui de novo internada, mais um mês, e desta vez fiquei mesmo arrasada, desmotivada, triste, desolada.
Estar pela 3ª vez internada, fez-me reviver tudo o que já  tinha passado durante ano. 
Toda a minha vida que se tinha desmoronado, todos os sacrifícios feitos em nome da recuperação, todas as dores sofridas, todas as tentativas para me erguer, e ao fim de um ano ali estava eu, de novo, sem me conseguir mexer do lado direito, deitada numa cama de hospital.
  
E foi nesse momento que percebi de que fibra era feita.
Foi nesse momento que percebi a fé que tinha em Deus.
Foi nesse momento que me recusei a desistir.
Foi nesse momento que decidi que queria continuar a viver.
Não importava como, nem de que maneira o  ia fazer.
Apenas sabia  que queria continuar a viver.
Já passaram 6 anos, 4 meses e um dia desde o meu 1º AVC.

E estou aqui para dizer que, uma das coisas que aprendi é que, sim, é possível ser feliz. Eu sou.




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