Uma
das sequelas motoras resultantes do meu
AVCH foi a hemiparesia direita.
No
meu caso o meu pé sempre foi um grande entrave para começar a andar: o meu pé
ficou equino, completamente pendente e
torto.
Não
era capaz de levantar o pé activamente e ele batia no solo ou os dedos
arrastavam pelo chão.
Além
disso, o meu pé ficou torto, aliás não assentava sequer no chão: por exemplo se
o pusesse no chão ele ficava todo virado para dentro e com os dedos encolhidos.
Todos
os exercícios de fisioterapia que deviam ser feitos descalça eram muito
complicados de executar, pois sem nenhuma órtose, sem nenhum apoio, o pé
virava-se todo.
Eram
sessões de fisioterapia difíceis e dolorosas.
Para
iniciar a marcha, comecei por usar um Foot-up que não me resolvia o problema do
pé entortar e corria o risco de fazer
entorses.
Comecei
então a usar uma tala rígida desde o pé até ao meio da perna.
Esta
tala ou órtose, permitia-me uma marcha mais correcta, pois o pé ficava ali
“encaixado” numa posição direita.
Andei
com esta tala durante 3 anos.
De
noite, se acordasse e quisesse sair da cama tinha que colocar a tala dentro do ténis.
No
verão, se quisesse ir à praia só o conseguia fazer calçada com ténis e com a famosa tala colocada. Ir até à beira-mar
era muito complicado.
Durante
3 anos aquela tala fez parte de mim.
Lembro-me
do alívio quando ao fim do dia a tirava e me sentava enfim descalça. Com o pé torto, mas descalça….
Mas,
para mim, usar a tala era a única forma de andar, fosse em casa ou na rua.
Com
a fisioterapia passei por várias fases evolutivas: da cama fui para a cadeira
de rodas, depois comecei a andar com o tripé, mais tarde andei de muletas,
depois sugeriram-me andar com um bastão (para andar mais direita) e também andei com uma bengala. Sempre com a tala claro!
Nesse
período pensava muitas vezes: será que vou conseguir andar descalça alguma vez?
Sentir o chão de novo, a areia fina e
quente, um tapete macio debaixo dos pés? Às vezes tinha medo de me esquecer
de como eram essas sensações.
E
possivelmente ainda hoje andaria com a tala, não fosse ter conhecido por mera
coincidência, (e logo eu que não acredito em coincidências) um médico
neurocirurgião, especialista em cirurgias em lesões neurológicas no pé e mão,
em AVCs e outras situações.
Após me ter feito uma avaliação detalhada da minha
marcha , do meu pé e perna, explicou-me alguns detalhes da cirurgia e do
pós-operatório.
E
perguntou-me se eu queria marcar a operação para o pé.
Olhei-o
de frente e perguntei o que ele me poderia garantir, quais os ganhos que eu
teria.
Muito
directo, respondeu-me que, embora ficasse a coxear, o pé ficaria direito e eu
deixaria de usar tala, ou qualquer tipo de órtose.
Foi
o que me bastou ouvir para responder sim.
Em 2012 fiz a operação. As fotos são do meu pé e
perna 2 dias após a cirurgia.
Tive
uma recuperação bastante dolorosa. Durante 2 meses voltei a andar de cadeira de
rodas (pois o pé tinha que estar posicionado dentro de gesso) e não podia fazer
qualquer tipo de força sobre ele. Ganhei uma escara e passei esses 2 meses
praticamente deitada, pois tinha dores horríveis.
Ao
final de 2 meses, recomecei de novo a fisioterapia.
Hoje
ao fim de 2 anos, as cicatrizes mal se notam.
Nunca
mais voltei a usar tala, nem nenhum apoio para o pé.
E
concretizei um sonho: ando descalça, em casa, à beira-mar, onde me apetecer.
Ainda
hoje, sempre que ando descalça sinto-me agradecida e feliz. É uma sensação de
vitória e liberdade indescritíveis.
O
que resultou para mim, não quer dizer que seja igual para todos.
Mas
achei que devia partilhar este episódio tão importante na minha história de
recuperação, para reforçar a ideia de
que, quando menos se espera a oportunidade
bate-nos à porta. Temos é que estar atentos e disponíveis.
Nada
é para sempre.
Por isso, encante-se com os seus pequenos
ganhos. Recorde os momentos de vitória. E dê valor ao que já conseguiu!





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